O Carnaval é uma festa acessível para pessoas com deficiência?

A festa acabou, mas a discussão continua: o Carnaval é tradicionalmente uma festa do povo, mas é para todos? Uma pessoa com deficiência, seja ela física, auditiva, visual ou cognitiva, a missão de curtir o Carnaval fica um tanto complicada: a multidão, a quantidade de objetos jogados ao chão e a falta de acessibilidade impedem que essas pessoas possam curtir a festa com tranquilidade.

Nas principais cidades carnavalescas, para chegar nos locais de desfile, faltam rampas para subir nas calçadas, o transporte coletivo e carros de aplicativo não são adaptados. Após chegar à folia, uma pessoa com deficiência encontra camarotes sem acessibilidade ou com acessibilidade limitada a um único espaço. Atualmente, a Marquês de Sapucaí (RJ) e o Anhembi (SP) possuem camarotes exclusivos para o público com deficiência, com acessibilidade total, inclusive nos banheiros. 

Nos blocos de rua, além de barreiras físicas, ainda é preciso desviar dos olhares preconceituosos de pessoas e atitudes que parecem inofensivas, mas que revelam um preconceito velado. Frases como "você é uma inspiração", "você é uma guerreira" ou "parabéns por estar aqui" são constantemente ditas pelos foliões. Não há maldade nesse comportamento, porém as pessoas com deficiência querem mesmo é serem vistas e tratadas com igualdade e naturalidade.

Veja abaixo alguns blocos inclusivos no Brasil:

Tá Pirando, Pirado, Pirou! (Rio de Janeiro)
Fundado em dezembro de 2004, o nome do bloco foi inspirado na fala de um paciente do Instituto Municipal Philippe Pinel: “Não vamos fazer carnaval só pra quem tá aqui dentro e já pirou, vamos pra rua brincar com quem tá pirando… Tá pirando, pirado, pirou!” Assim, no Carnaval de 2005, eles desfilaram pela primeira vez pelas ruas da cidade. 

Embaixadores da Alegria (Rio de Janeiro)
Uma grave crise na coluna fez com que o inglês Paul Davies não conseguisse desfilar no Carnaval. Morando no Rio de Janeiro há mais de 20 anos e apaixonado por samba, Paul usou seu problema momentâneo como inspiração para criar o Embaixadores da Alegria em 2006 e, assim, permitir que pessoas com deficiência diversas pudessem participar da festa.

Senta Que Eu Te Empurro (Rio de Janeiro)
A proposta do Bloco de Carnaval Senta Que Eu Te Empurro é socializar, integrar e dar visibilidade a pessoas com deficiência. De maneira divertida e descontraída, desde 2008, o bloco sai pelas ruas do bairro do Catete quebrando barreiras, preconceitos, levando alegria e colaborando para a autoestima dessas pessoas. 

Camarote da Acessibilidade (Olinda e Recife)
A estrutura fica estrategicamente posicionada para que pessoas com deficiência, idosos e acompanhantes possam assistir aos desfiles dos blocos de maneira confortável e segura. A capacidade é de 400 pessoas e a arquibancada é reverenciada por todas as bandas e baterias que passam pela rua. Com a visão privilegiada, todos podem acompanhar as festividades carnavalescas sem medo ou contratempos. Além disso, o espaço ainda conta com banheiros acessíveis e com intérpretes de libras para a tradução de todas as letras de músicas tocadas.

Bloco “Todo Mundo Cabe no Mundo” (Belo Horizonte)
No Carnaval mineiro, o bloco “Todo Mundo Cabe no Mundo” promove a inclusão de pessoas com deficiência. O idealizador é o artista visual Marcelo Xavier, de 69 anos, portador de Esclerose Lateral Amiotrófica. Desde 2016, além de chamar a todos para brincar no Carnaval, o bloco também é composto por uma bateria mista, que oferece oportunidade de atuação para vários músicos com deficiência.